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Qual o impacto do boicote de supermercados europeus à carne brasileira?

Barreira mostra urgência do combate ao desmatamento, dizem analistas. Legislações para monitoramento de cadeias produtivas avançam em diversos países.

“O Natal chegou mais cedo para as florestas da Amazônia, o cerrado brasileiro e o Pantanal”, disse Nico Muzi, diretor da ONG Mighty Earth, ao jornal britânico The Guardian.

Ele comentava a decisão, anunciada nesta semana, de seis redes europeias de supermercados de não vender mais carne bovina com origem no Brasil ou produtos ligados à JBS, após denúncias de que a empresa brasileira teria comprado gado criado em áreas de desmatamento, dentro de um esquema conhecido como “lavagem de gado”.

A investigação que deu origem ao boicote anunciado pelos varejistas europeus foi feita pela Mighty Earth, em parceria com a organização brasileira Repórter Brasil.

A JBS nega irregularidades, diz que mantém tolerância zero com o desmatamento ilegal e que bloqueou mais de 14 mil fornecedores por descumprirem suas normas.

No dia 19 de novembro, o governo brasileiro prometeu aumentar as punições aos desmatadores.

Mas qual é de fato o impacto do boicote anunciado? E como ele se insere num movimento maior de intolerância da opinião pública ao desmatamento, com o avanço de legislações em diversas partes do mundo exigindo um maior controle das cadeias produtivas de alimentos?

A BBC News Brasil conversou com especialistas da área ambiental e do setor agropecuário para responder a essas e outras questões.

 

Histórico de boicotes

Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, destaca que a decisão de boicote pelos supermercados europeus é parte de um movimento que já vem de alguns anos, de pressão por compradores de produtos brasileiros contra o desmatamento.

“Isso começou em 2006, com a moratória da soja, quando o McDonald’s anunciou a suspensão temporária da compra de soja brasileira por conta do desmatamento”, lembra Astrini.

Em 2019, grandes marcas internacionais de vestuário, incluindo Kipling, Timberland, Vans e The North Face, suspenderam a compra de couro do Brasil em meio à forte repercussão internacional naquele ano das queimadas na região amazônica.

Também naquele ano, a Paradiset, maior rede de produtos naturais da Suécia, decidiu banir produtos agrícolas brasileiros de suas prateleiras, devido à maior liberação de agrotóxicos no país sob o governo de Jair Bolsonaro (PL).

Em maio desse ano, um grupo de empresas europeias, incluindo a rede britânica de supermercado Tesco e a loja de departamentos Marks & Spencer, ameaçou parar de comprar commodities brasileiras em protesto contra um projeto de lei (PL 510/2021) em tramitação no Senado, que tratava da regularização da ocupação de terras públicas.

Uma reportagem recente do jornal Financial Times, no entanto, destacou que nem sempre as ameaças de boicote têm resultados práticos.

Segundo o periódico financeiro britânico, de um grupo de mais de duas dúzias de instituições financeiras que, em junho de 2020, endereçaram uma carta ao governo brasileiro pedindo controle do desmatamento e ameaçando desinvestir de empresas e da dívida soberana do Brasil, apenas duas instituições fizeram desinvestimentos de fato.

O FT destacou ainda que a ameaça de boicote do grupo encabeçado pela rede de supermercados Tesco também não foi para a frente, apesar do contínuo avanço do desmatamento no Brasil — embora o PL 510/2021 não tenha prosperado. Conforme o jornal, o grupo agora diz que um esforço unificado de governos e do setor corporativo é necessário.

Falta de ação do governo brasileiro
Para Márcio Astrini, do Observatório do Clima, esses movimentos de boicotes e ameaças de desinvestimentos tendem a continuar, a não ser que o Brasil tome uma ação efetiva contra a destruição de suas florestas.

Para o ambientalista, no entanto, isso vai depender de uma mudança de governo.

“Existe só um antídoto para isso, que é o Brasil eliminar o desmatamento e dar a garantia para quem compra produtos brasileiros de que esse produtos não estão envolvidos com a destruição ambiental”, diz o secretário-executivo.

“Mas isso depende muito de quem está tomando as decisões no país. Hoje, esse tipo de iniciativa [de boicotes por grupos empresariais] não vai mudar a postura do presidente da República, infelizmente”, avalia, acrescentando que esses movimentos internacionais têm, no entanto, impacto sobre a opinião pública, Poder Judiciário e parte do Congresso, aumentando a pressão sobre o governo federal.

Os supermercados europeus que anunciaram nesta semana o boicote ao Brasil não informaram o volume de produtos que deixará de ser comprado devido à barreira comercial.

A União Europeia como um todo importou em 2020 cerca de US$ 223 milhões (R$ 1,3 bilhão) de carne bovina brasileira congelada. A título de comparação, o montante equivale a menos de 6% dos US$ 4,04 bilhões em carne bovina congelada importada pela China do Brasil no mesmo ano.

Os valores ajudam a dimensionar o impacto potencialmente limitado do boicote feito por seis grupos supermercadistas de Holanda, Bélgica, França e Reino Unido.

“Não existe nenhum cliente único que ao deixar de fazer uma compra ou romper seus contratos vá significar um prejuízo irrecuperável para uma empresa. Mas o conjunto dessas manifestações vai fazendo a empresa ter mais dificuldades no mercado, nos mercados de ações, no valor da companhia”, observa Astrini.

“Esses recados estão sendo dados há mais de uma década e vemos pouca movimentação positiva para resolver o problema por parte dessas companhias. Vai chegar uma hora em que a situação vai ficar insustentável”, conclui o ambientalista.

Avanço de legislações nacionais
Um dos motivos que levam o representante do Observatório do Clima a acreditar que o cerco contra o desmatamento está se fechando é o avanço de uma série de legislações nacionais, em diversas partes do mundo, exigindo um maior controle das cadeias produtivas de alimentos.

Em agosto deste ano, o embaixador Orlando Ribeiro, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), reconheceu que o governo brasileiro observa essas movimentações com preocupação.

Segundo o secretário, o Brasil está atento a iniciativas como a intenção do Reino Unido de criar uma obrigação de rastreamento das importações de alimentos oriundos de áreas de desmatamento (obrigação de “due diligence”, na expressão em inglês) e a implementação da política Farm to Fork (da fazenda ao garfo) pela União Europeia, que busca implementar ações para maior sustentabilidade da cadeia produtiva alimentar do bloco.

“Essas iniciativas poderão sim ter impactos na competitividade das exportações agrícolas do Brasil”, afirmou então o diplomata.
Na União Europeia, segundo o jornal Valor Econômico, o sistema será implementado no fim de 2023 e irá qualificar fornecedores por alto, médio ou baixo risco levando em conta desde taxas de desmatamento até a implementação de metas climáticas. A iniciativa não distingue entre desmatamento legal e ilegal.

“A iniciativa prevê barrar importações de soja, carne bovina, café, cacau, madeira e óleo de palma provenientes de áreas desmatadas, além de alguns produtos derivados como couro, chocolate e móveis. Novos produtos serão incorporados regularmente à lista”, observou o jornal, com base em uma apresentação de Karolina Zázvorková, da divisão de Meio Ambiente da Comissão Europeia.

Além das iniciativas britânica e europeia, China e Estados Unidos — os dois principais parceiros comerciais do Brasil — lançaram em novembro, durante a COP26, uma declaração conjunta de que os dois lados pretendem colaborar para eliminar o desmatamento ilegal global e irão aplicar suas legislações para não comprar produtos com ligação com a atividade.

Nos Estados Unidos, o Congresso debate um projeto legislativo — batizado de Forest Act 2021, ou Lei Florestal 2021 — que pode barrar importações agrícolas de países com índices altos de desmatamento, forçando produtores e importadores a terem de comprovar que suas cadeias produtivas não estão ligadas a áreas ilegalmente desmatadas.

Consumidores querem mudanças
Enquanto essas iniciativas legislativas são debatidas em todo o mundo, os consumidores também são sinais de que querem uma ação mais contundente contra o desmatamento e as mudanças climáticas.

Segundo pesquisa realizada pela consultoria Oliver Wyman, 62% dos brasileiros acreditam que é dever do Estado frear as mudanças climáticas, ante 73% dos chineses, 70% dos britânicos, e 53% dos americanos.

Para 45% dos brasileiros, as empresas também devem tomar atitudes, número similar ao da China (45%) e Reino Unido (44%) e superior ao dos EUA (34%).

Já um levantamento do Boston Consulting Group (BCG) mostrou que 93% dos consumidores brasileiros se preocupam com o impacto de seu comportamento sobre as mudanças climáticas, acima da média mundial de 83%.

O percentual de brasileiros que se dizem prontos a alterar seus padrões de consumo foi de 54%, atrás apenas dos 69% da Índia e acima da média mundial de 42%.

‘Boicote não é solução’
Para Rodrigo Lima, sócio-diretor da Agroicone, consultoria ligada ao setor do agronegócio, os boicotes por grupos privados não são solução para o problema do desmatamento brasileiro.

Mas ele reconhece que dar atenção à questão é inescapável para o governo e o setor agrícola.

“A pecuária brasileira não depende de desmatamento e existem várias ações dos principais agentes do mercado para garantir que eles não tenham desmatamento dentro da sua cadeia”, observa Lima.
“Isso não está sendo considerado. A escolha é simplesmente ‘não compro mais e acabou’, porque aí [a empresa compradora] não tem o risco reputacional. Eles estão contribuindo de alguma forma para que não haja desmatamento no Brasil e em outros países? Entendo que não, porque simplesmente virar as costas e falar ‘não compro’ não resolve nada”, opina.

O consultor avalia que o boicote desconsidera que o desmatamento tem origens diversas além da pecuária, como mineração, pobreza, assentamentos, grilagem e retirada de madeira.

Mas Lima reconhece que, se o governo brasileiro não for eficiente em dar respostas ao desmatamento, quem paga a conta é a agropecuária, que portanto deve ser “fiadora” do cumprimento da meta do país de zerar o desmatamento ilegal até 2028.

Segundo o sócio da Agroicone, o país precisa aumentar a transparência de dados sobre uso da terra e desmatamento, separando, por exemplo, o que é desmatamento legal e ilegal — ele avalia que a União Europeia erra ao não distinguir entre as duas formas de desflorestamento e que isso poderá ser questionado pelo Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio).

Lima defende ainda a efetiva implementação do Código Florestal brasileiro, a regularização da titulação fundiária de áreas legalmente ocupadas e destaca a importância do Plano Setorial de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária (Plano ABC+) como norte para a redução de emissões pelo setor.

Para Márcio Astrini, do Observatório do Clima, no entanto, nada disso é suficiente.

“A gente precisa do governo federal se movimentando para diminuir o desmatamento no país”, diz Astrini. “Sem o governo federal, empresas isoladamente e governos dos Estados, mesmo que quisessem fazer, não conseguiriam ter eficiência suficiente.”

“Precisamos ter uma liderança no Brasil que entenda essa agenda e coloque ela para funcionar na prática, chamando a sociedade para resolver o problema do desmatamento no Brasil. Vamos precisar dos empresários, cientistas, investidores, parlamentares, para fazer um pacto de perseguir o objetivo de eliminar o desmatamento. Isso é possível de ser feito.”