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Na crise dos fertilizantes, falta até esterco para agricultores

crise dos fertilizantes

Com a disparada dos preços dos adubos minerais, nos EUA, agora há fila de espera pelo material orgânico, antes tratado como rejeito

Há quase duas décadas, Abe Sandquist emprega toda ferramenta de marketing que consegue imaginar para vender o que o traseiro de uma vaca produz. Os excrementos, afinal, têm de ir para algum lugar. O empresário do Meio-Oeste americano trabalhou arduamente para convencer os agricultores dos benefícios do estrume para suas lavouras. Agora, com a escassez global de fertilizantes minerais, agravada pela guerra na Ucrânia, mais agricultores vieram bater à sua porta.

Sandquist diz que eles estão loucos por conseguir uma coisa pela qual o personagem da velha canção folclórica americana “Old MacDonald Had a Farm” poria a mão no fogo: o obsoleto esterco animal. “Gostaria que tivéssemos mais para vender”, disse Sandquist, fundador da Natural Fertilizer Services, uma empresa de gestão de nutrientes do Estado americano de Iowa. “Mas não há o suficiente para atender à demanda”.

Alguns criadores de gado de corte e de leite, entre os quais os que antes pagavam pela retirada dos dejetos de seus animais, encontraram na venda a produtores de grãos um negócio adicional. Empresas de equipamentos que fabricam dispersores de esterco — conhecidos em inglês como “honeywagons” — também têm se beneficiado.

“Commodity procuradíssima”

O número de agricultores americanos que buscam esterco para sua temporada de plantio de primavera cresceu, e alguns profissionais de engorda de gado que vendem estrume estão com estoques esgotados até o fim do ano, segundo o consultor Allen Kampschnieder. “O esterco é, sem dúvida nenhuma, uma commodity procuradíssima”, disse Kampschnieder, que trabalha para a Nutrient Advisors, sediada no Estado americano de Nebraska. “Estamos com listas de espera”.

Com a escalada vertiginosa dos preços dos fertilizantes industrializados, as áreas de plantio de milho e trigo devem diminuir nesta primavera (de março a junho, no Hemisfério Norte) nos EUA, de acordo com dados do governo americano. Isso ameaça ainda mais a oferta mundial de alimentos, em um momento em que os estoques de trigo do país estão em seu menor nível em 14 anos e no qual a guerra entre Rússia e Ucrânia desestabiliza as exportações de grãos desses países.

Embora o esterco possa substituir parte dos fertilizantes que estão em falta, ele não resolve todos os problemas, dizem especialistas em agricultura. Não há oferta suficiente de adubo orgânico para suprir toda a demanda americana de fertilizante mineral.

Item altamente regulamentado

O transporte de esterco é caro, e os preços dos dejetos estão aumentando, puxados pelo crescimento da demanda. Além disso, o estrume também é altamente regulamentado pelas autoridades americanas, em parte devido a temores sobre os impactos do uso do material sobre os sistemas de abastecimento de água. Os rejeitos podem causar problemas graves se contaminarem os rios, lagos e o lençol freático das proximidades das lavouras, disse Chris Jones, engenheiro de pesquisa e especialista em qualidade da água da universidade de Iowa. Os pecuaristas dizem ser difícil cumprir todas as regras do governo sobre o rastreamento da aplicação do esterco.

Independentemente dos percalços, a demanda está disparando. Em Wisconsin, três pecuaristas de leite disseram à Reuters que recusaram pedidos de compra de esterco enviados por mensagens de texto e pelo Twitter. A Phinite, sediada na Carolina do Norte, que produz sistemas de secagem de esterco, disse estar recebendo pedidos de produtores de Estados tão distantes quanto os de Minnesota, Illinois, Iowa e Indiana.

Mudanças visíveis

A Smithfield Foods, a maior produtora de carne de porco do mundo, observou a mudança nas fazendas americanas de suinocultura que abastecem seus matadouros. “Estamos, claramente, vendo os agricultores mudarem para o esterco por causa do aumento dos preços dos fertilizantes”, disse Jim Monroe, porta-voz da empresa.

Os preços começaram a disparar no ano passado, refletindo o aumento da demanda e redução da oferta. Em paralelo, condições climáticas extremas e surtos de covid-19 desequilibraram as cadeias de suprimentos. A guerra na Ucrânia agravou a situação ao reduzir as exportações de fertilizantes da Rússia e de Belarus, sua aliada, devido a sanções impostas pelo Ocidente e a problemas de transporte marítimo.

Isso ameaça encolher as safras no mundo inteiro em uma época de inflação de alimentos recorde. Somadas, Rússia e Belarus responderam por mais de 40% das exportações mundiais de potássio no ano passado, um dos três principais nutrientes usados para aumentar o rendimento da lavoura, segundo o banco holandês Rabobank. Em dados de março, as cotações dos fertilizantes minerais alcançaram uma alta recorde: o preço dos nitrogenados quadruplicaram desde 2020 e os fosfatados e potássicos triplicaram, disse a consultoria CRU Group, com sede em Londres.

Uma das pessoas que ficaram na mão é Dale Cramer, que cultiva milho, soja e trigo numa área de 2,4 mil hectares em Cambridge, Nebraska. Em busca de alternativas, ele vem procurando esterco em fazendas de engorda desde agosto, sem sucesso. “Muita gente estava atrás da mesma coisa”, disse Cramer.

Alta de preços

Com a disparada da demanda por esterco, os preços seguiram o mesmo curso, gerando uma maré de lucros inesperada para produtores de gado e fazendas de engorda. Só em Nebraska, os preços de esterco sólido, de boa qualidade, alcançaram de US$ 11 a US$ 14 a tonelada, patamar bem superior à média, de US$ 5 a US$ 8 a tonelada, disse o consultor Kampschnieder. O inverno seco puxou os preços para cima ao diminuir o teor de água no esterco, o que o deixa mais concentrado, e portanto mais valioso, explica ele.

O agricultor Pat Reisinger, de Iowa, está aliviado pelo fato de ter estrume dos porcos e das vacas leiteiras que cria para adubar o milho, a soja e o feno que produz para alimentar esses animais. Ele vendeu um pouco de esterco para um vizinho e está recebendo telefonemas de outros que estão precisando de adubo. “Se eu vendesse mais, teria de dar meia-volta e comprar fertilizante mineral, o que não faz sentido”, disse Reisinger.

Impulso aos maquinários

A forte demanda também impulsionou o crescimento de empresas de maquinário que fabricam dispersores de esterco sólido, assim como os veículos chamados de “honeywagons”: tanques com rodas que são engatados em caminhões e tratores para transportar e aplicar estrume liquefeito.

No Canadá, a Husky Farm Equipment está com os estoques de honeywagons esgotados. A empresa construiu seu primeiro dispositivo mecânico ainda em 1960, como maneira de tornar a coleta e a dispersão de esterco mais eficientes, segundo o presidente, Walter Grose. Atualmente, Grose vende diretamente aos agricultores e às revendedoras de maquinário e não consegue dar conta da demanda.

“Temos pessoas procurando por equipamento para uso imediato e estamos com o estoque esgotado por seis meses”, disse Grose, que vende “honeywagons” de vários tamanhos. Os tanques maiores são comercializados ao preço médio de US$ 70 mil. A CNH Industrial, a gigante ítalo-americana de equipamentos agrícolas e de construção, disse ter observado firme demanda por seus dispersores em forma de caixa da marca New Holland – essencialmente uma caixa de aço que é engatada em um trator para carregar e distribuir esterco sólido.

A revendedora de equipamentos do Kansas IanEquip esgotou os estoques de dispersores New Holland, embora os preços tenham dado um salto de 10% em relação ao preço normal de tabela, de US$ 30 mil, disse o gerente regional, Bryndon Meinhardt. Segundo ele, a revendedora encomendou 10 máquinas adicionais para atender à demanda.

Mesmo em Estados em que grandes rebanhos de animais geram enormes quantidades de esterco, não há volume suficiente para substituir totalmente o fertilizante mineral. Iowa, o maior Estado produtor americano de carne de porco e milho, já aplica todo o seu esterco nas áreas correspondentes a cerca de 25% de suas áreas de cultivo de milho a cada ano, disse Dan Andersen, professor-associado da Universidade Estadual de Iowa especializado em gestão de esterco.

Em média, Iowa usa cerca de 14 bilhões de galões (52,99 bilhões de litros) de esterco anualmente, disse Andersen, conhecido como “@DrManure” (“Dr. Esterco”, em inglês) no Twitter. Ele prevê que os agricultores de Iowa poderão absorver mais 1 bilhão de galões (3,785 bilhões de litros) dos volumes armazenados nos tanques nas propriedades rurais para substituir o oneroso fertilizante comercial.

Concentração geográfica

Parte do atual problema de abastecimento tem raízes na evolução da economia agrícola dos Estados Unidos. Com a consolidação da criação de animais americana, há polos geográficos de criação de animais para a produção de ovos, leite ou carne, nos quais é produzida a maior parte do esterco. Em decorrência disso, em alguns lugares a quantidade de esterco é pequena demais, enquanto em outros é exageradamente grande, o que os obriga a procurar maneiras de dar um destino a esse esterco.

Em outubro passado, o produtor de laticínios Brett Reinford, da Pensilvânia, achou que podia lhe faltar espaço de armazenagem de esterco ao longo do inverno. Com isso, ele fez uma oferta aos agricultores locais: quem retira o esterco pode ficar com ele de graça. Reinford não conseguiu quem aceitasse. Passados seis meses, o produtor agora está nadando em ouro líquido. “Estamos mantendo tudo, e eu gostaria que tivéssemos mais”, disse ele.

O esterco poderá ficar ainda mais precioso ao longo deste ano, com a redução dos rebanhos de animais de pasto e da criação de aves. O número de porcos nos Estados Unidos caiu para seu nível mais baixo dos últimos cerca de cinco anos, em um momento em que os produtores estão às voltas com doenças de suínos e custos crescentes de rações e outros insumos. A gripe aviária, por seu lado, eliminou mais de 22 milhões de frangos e perus das granjas comerciais americanas desde fevereiro. Mas mesmo criadores de aves duramente atingidos puderam ter algo de útil: suas aves mortas podem passar por compostagem e serem aplicadas como fertilizante, segundo o Departamento de Agricultura e Gestão de Terras de Iowa.